"Quem pensa por si mesmo é livre!"
Renato Russo

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Lenda Urbana


Existem muitas lendas urbanas, histórias que narram fatos improváveis, embora possíveis de acontecer. As atuais lendas urbanas, acredito eu, são a evolução dos “causos de caipira”. Nada mais normal que num país cada vez mais urbanizado os lobisomens e mulas-sem-cabeça percam seus lugares para as noivas do banheiro e as não-se-pode da cidade grande.

Mas, como não sou homem de contar historiazinhas, vou contar-lhes hoje um surpreendente fato real – e é apenas um dentre muitos – envolvendo este singelo personagem que hoje lhes apresento: o Prof. Doido de Pedra! Faço observar que, embora os fatos narrados sejam verídicos nos seus menores detalhes, os nomes das pessoas envolvidas foram trocados por outros fictícios, a fim de evitar transtornos judiciais.

Esta história aconteceu há poucos anos atrás, quando eu era estudante na Universidade Federal do Piauí. Nesta época foram meus professores duas sumidades do direito piauiense, o Prof. Agildo, dono de uma vasta careca, e seu irmão Prof. Doido de Pedra, maior fonte de lendas urbanas do campus.

Diz a lenda que, em certa noite, o Prof. Agildo foi até o Departamento de Ciências Jurídicas procurar seu irmão:

- Ei, Doido, finalmente te encontrei!

- Fala Agildo.

- Eu vim de carona hoje, meu carro está na revisão, posso voltar pra casa com você?

- Pode sim.

- A que horas termina sua última aula?

- Vinte e uma horas e trinta minutos, pontualmente.

- Tudo certo então, nos encontramos aqui mesmo do DCJ?

- Combinado...

Após o acerto, cada um foi dar suas aulas.

Na hora combinada o Prof. Agildo já se encontrava no DCJ quando chegou o Prof. Doido de Pedra:

- Já estou indo, Agildo, você vem comigo mesmo?

- Vou sim, e vamos logo que hoje tem jogo da seleção.

- Então vamos.

E os dois irmãos saíram, calados, caminhando pelos corredores já meio desertos do Centro de Ciências Humanas e Letras. Logo nos primeiros passos o Prof. Agildo notou que, ao invés de caminharem em direção ao estacionamento do CCHL, onde Doido de Pedra sempre deixava seu carro, dirigiam-se para os lados do estacionamento do Centro de Ciências Exatas.

- Hum – pensou Agildo – hoje ele deve ter deixado o carro no estacionamento do CCE.

No entanto, para sua surpresa, Doido de Pedra passou tranquilamente pela passarela do CCE, sem nem ao menos virar o olhar para o estacionamento. Logo em seguida tomou a direção da Biblioteca Central, que fica a uns 300m adiante do CCE, já próximo ao portão de entrada da UFPI.

- Ah, claro – raciocinou Agildo – certamente o Doido deixou o carro no estacionamento da Biblioteca, deve ter passado por lá antes de ir ao DCJ.

E continuaram os dois irmãos caminhando mudos, lado a lado, Prof. Doido de Pedra tranqüilo, assoviando e fumando seu cigarro, e o Prof. Agildo um pouco perturbado, pois temia perder o início do jogo. Mas pelo menos agora não havia dúvida, o carro havia de estar estacionado nas proximidades da Biblioteca Central.

Porém, chegando nos arredores da biblioteca, ao invés de dirigir-se para o estacionamento, Doido de Pedra tomou o rumo do passeio público, saindo dos limites da UFPI. Agildo ficou justificadamente surpreso:

- Ô Doido, onde foi mesmo que você estacionou teu carro, hein?

- Carro? Mas que carro, homem?!?

- Ora essa, o teu carro, Doido, eu não te pedi carona pra voltar pra casa hoje?

- Não, não! Você me perguntou se podia voltar pra casa junto comigo!

- Que seja, Doido! Mas onde você deixou seu carro?

- E quem foi que te disse que eu vim de carro? Eu vim a pé!

Estas palavras paralisaram o Prof. Agildo, que viu seu irmão distanciar-se um pouco.

- Vamos, Agildo! Vamos! Senão você vai perder o segundo tempo do teu jogo!