"Quem pensa por si mesmo é livre!"
Renato Russo

domingo, 26 de setembro de 2010

A rosa murcha


A vida não estava boa. Sozinho, uma hora adentro na madrugada de sábado, sentado em uma das mesas de um dos vários quiosques em frente ao Shopping Riverside. Rubens estava escorregado, largado em uma cadeira. Com as pernas afastadas em V, Rubens fitava a quarta dose de uísque sem gelo daquela madrugada, girando lentamente o copo pelo fundo, segurando o recipiente com os dedos indicador e polegar da mão esquerda. Com a outra mão cobria a testa, meio que tapando o rosto cabisbaixo.

Sozinho, na verdade, era bem o estado de espírito de Rubens, mas ao seu redor havia muita gente, mais de cinquenta talvez, indo de um lado a outro pelo passeio público defronte aos quiosques. O burburinho constante das risadas, das conversinhas simplórias, a música de gosto duvidoso ao fundo, tudo contribuía para ampliar a solidão do jovem. Rubens contava 23 anos de idade, mas naquele momento a vida lhe parecia demasiado longa, vazia e sem sentido algum.

Naquela noite fazia frio. Uísque gelado, calafrios pelo coração e um baita céu escuro sobre a cabeça, que vida sem graça a de Rubens...

Definitivamente algo saíra errado. Pensar que ainda naquela noite o rapaz se julgava um homem feliz, satisfeito...

Ana era como se chamava sua noiva - ex-noiva, corrija-se. Três anos de relacionamento intenso com a moça de estatura mediana, corpo curvilíneo, cabelos longos, pretos e lisos, que charmosamente costumava arrumar em rabo-de-cavalo, de frente para o rapaz, hipnotizando-o com os seios em riste. Não bastassem os predicados físicos, a mulher ainda possuía uma inteligência invulgar, era, enfim, o tipo de mulher que sabia virar a cabeça de um homem.

Ana era quatro ou cinco anos mais jovem que Rubens, e era a fonte de sua vida. Tudo na vida de Rubens girava em torno de Ana. Todos os seus planos incluíam Ana, foram feitos em função de Ana. Ana tinha sido a primeira e era a única mulher na sua vida, e ele não precisava de mais nada.

Rubens havia conhecido Ana logo alí, do outro lado da avenida, na Praça do Japão do Shopping Riverside. Quando a beijou naquela noite, três anos atrás, Rubens não tinha como saber que sua vida se dividiria em antes e depois daquele beijo.

- Amigo, me trás mais um uísque, por favor.

Naquela noite, Rubens descobriu que era traído. Ana não era tão sua. Ana era dela, e queria mais da vida do que apenas os planos de Rubens.

A descoberta abalou o jovem, Rubens nunca havia bebido antes, quanto mais uísque puro.

Duas horas da manhã, entediado, o rapaz pagou a conta, e, como o troco demorasse, resolveu ir embora sem recebê-lo. Desviou das outras mesas, não sem dificuldades. Parou um pouco no passeio, olhou para o céu, em busca de uma estrela, uma estrela qualquer, mas a iluminação pública ajudava a escurecer o céu de um negro avermelhado, não se via coisa alguma. Sua cabeça latejava e parecia enorme enquanto cambaleava para seu carro, imerso em pensamentos.

- Acho que não deveria ter bebido tanto. – Pensava enquanto acionava o motor.

Rubens fechou um pouco os olhos, ligou os faróis e percebeu, caminhando para a margem do rio, duas belas mulheres, enlaçadas uma à outra. Pode ter sido apenas o efeito do álcool, mas pensou ter visto as duas moças se beijarem no meio da escuridão. A visão, por algum motivo, excitou o jovem. Rubens desligou o veículo e saiu em direção às mulheres, sem saber direito o motivo. Porém, quanto mais se aproximava, mais as moças se afastavam, caminhando para a beira rio. Quando deu por si, Rubens estava na margem do Poti, sozinho. Não havia ninguém, só o burburinho dos quiosques e o murmúrio das águas esverdeadas.

Na margem do rio, braços na cintura, olhos fixos no reflexo pálido da lua, cabeça girando.

- Que diabos é aquilo? Uma rosa vermelha, boiando no meio do rio?

Rubens pensou um pouco em Ana, e resolveu ir buscar a rosa vermelha, boiando nas águas do Poti. Duas moças que se amavam, escondidas na escuridão da margem, viram, assustadas, quando o jovem entrou nas águas cambaleante, mas ninguém viu Rubens saindo. Rubens não sabia nadar.

Ao amanhecer os bombeiros retiravam o corpo de Rubens das águas, cerca de dois quilômetros rio abaixo, ele segurava uma flor murcha e despetalada.

Ana chorou naquele dia.

Piracuruca, dezembro de 2010.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Em breve, de volta!

segunda-feira, 1 de março de 2010

O Anti-cristo


Quando esteve entre nós Jesus Cristo nos foi o exemplo da humildade. O Rei dos reis nasceu filho de carpinteiro, em uma estrebaria, teve uma manjedoura como berço e os animais como testemunhas de sua chegada.
Já adulto, durante a revelação da Boa Nova, o Mestre Nazareno continuou a dar testemunho de simplicidade. Jesus nunca possuiu nenhum bem material, Ele mesmo disse: “o Filho do Homem não tem onde recostar a cabeça” (Mt 8:20).
Referindo-se aos bens materiais Jesus foi muito claro na pouca importância que deveríamos dar a eles e que os verdadeiros valores são os espirituais: Vendam os seus bens e dêem o dinheiro em esmola. Façam bolsas que não envelhecem, um tesouro que não perde o seu valor no céu: lá o ladrão não chega, nem a traça rói. De fato, onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração." (Lc 12, 33:34).
Em verdade, o Divino Mestre nos revelou que a riqueza material, por nos aproximar nos bens terrenos, tende a ser um verdadeiro estorvo para nosso crescimento espiritual, como vemos no Evangelho segundo Lucas:
“Uma pessoa importante perguntou a Jesus: "Bom Mestre, o que devo fazer para receber em herança a vida eterna?". Respondeu-lhe Jesus: “Você conhece os mandamentos: não cometa adultério; não mate; não roube; não levante falso testemunho; honre seu pai e sua mãe.". O homem disse: "Desde jovem tenho observado todas essas coisas.". Ouvindo isso, Jesus disse: "Falta ainda uma coisa para você fazer: venda tudo o que você possui, distribua o dinheiro aos pobres, e terá um tesouro no céu. Depois venha, e siga−me.". Quando ouviu isso, o homem ficou triste, porque era muito rico. Vendo isso, Jesus disse: "Como é difícil para os ricos entrar no Reino de Deus! De fato, é mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus." (Lc 18, 18:25).
Inobstante, aumenta a cada dia o número de instituições pseudo-cristãs, verdadeiramente anti-crísticas, que afirmam, com todas as letras, que o progresso material é marca da presença de Deus em nossas vidas, e que devemos buscá-lo constantemente.
Apesar de se dizerem Igreja e de apregoarem em suas fachadas que Jesus Cristo é o Senhor, a doutrina que defendem passa longe dos ensinamentos do Sublime Rabi da Galiléia, e o pior é que têm enganado a muitos...
Jesus nunca nos pediu dinheiro, ao contrário, com uma moeda na mão nos ensinou a dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus (Lc 20:25).
Jesus nunca nos prometeu recompensas materiais, vejam o Sermão da Montanha (Mt 5, 1:12), Jesus não nos promete ouro, jóias, carros importados, iates ou mansões!
Vamos abrir os olhos enquanto ainda temos luz para clarear nosso caminho! (Jo 12, 35)
Nem todos os que gritam “Senhor, Senhor!” entrarão no Reino de Deus! (Mt 7, 21)
E, principalmente, não se deixem enganar pelos falsos profetas! (Mt 24,11 e 24)
Da próxima vez que alguém tentar te convencer que a riqueza material é sinal de Deus em nossas vidas, apenas pergunte-lhe: “ – Por que, então, foi Jesus tão pobre e humilde, materialmente falando?”

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Lenda Urbana


Existem muitas lendas urbanas, histórias que narram fatos improváveis, embora possíveis de acontecer. As atuais lendas urbanas, acredito eu, são a evolução dos “causos de caipira”. Nada mais normal que num país cada vez mais urbanizado os lobisomens e mulas-sem-cabeça percam seus lugares para as noivas do banheiro e as não-se-pode da cidade grande.

Mas, como não sou homem de contar historiazinhas, vou contar-lhes hoje um surpreendente fato real – e é apenas um dentre muitos – envolvendo este singelo personagem que hoje lhes apresento: o Prof. Doido de Pedra! Faço observar que, embora os fatos narrados sejam verídicos nos seus menores detalhes, os nomes das pessoas envolvidas foram trocados por outros fictícios, a fim de evitar transtornos judiciais.

Esta história aconteceu há poucos anos atrás, quando eu era estudante na Universidade Federal do Piauí. Nesta época foram meus professores duas sumidades do direito piauiense, o Prof. Agildo, dono de uma vasta careca, e seu irmão Prof. Doido de Pedra, maior fonte de lendas urbanas do campus.

Diz a lenda que, em certa noite, o Prof. Agildo foi até o Departamento de Ciências Jurídicas procurar seu irmão:

- Ei, Doido, finalmente te encontrei!

- Fala Agildo.

- Eu vim de carona hoje, meu carro está na revisão, posso voltar pra casa com você?

- Pode sim.

- A que horas termina sua última aula?

- Vinte e uma horas e trinta minutos, pontualmente.

- Tudo certo então, nos encontramos aqui mesmo do DCJ?

- Combinado...

Após o acerto, cada um foi dar suas aulas.

Na hora combinada o Prof. Agildo já se encontrava no DCJ quando chegou o Prof. Doido de Pedra:

- Já estou indo, Agildo, você vem comigo mesmo?

- Vou sim, e vamos logo que hoje tem jogo da seleção.

- Então vamos.

E os dois irmãos saíram, calados, caminhando pelos corredores já meio desertos do Centro de Ciências Humanas e Letras. Logo nos primeiros passos o Prof. Agildo notou que, ao invés de caminharem em direção ao estacionamento do CCHL, onde Doido de Pedra sempre deixava seu carro, dirigiam-se para os lados do estacionamento do Centro de Ciências Exatas.

- Hum – pensou Agildo – hoje ele deve ter deixado o carro no estacionamento do CCE.

No entanto, para sua surpresa, Doido de Pedra passou tranquilamente pela passarela do CCE, sem nem ao menos virar o olhar para o estacionamento. Logo em seguida tomou a direção da Biblioteca Central, que fica a uns 300m adiante do CCE, já próximo ao portão de entrada da UFPI.

- Ah, claro – raciocinou Agildo – certamente o Doido deixou o carro no estacionamento da Biblioteca, deve ter passado por lá antes de ir ao DCJ.

E continuaram os dois irmãos caminhando mudos, lado a lado, Prof. Doido de Pedra tranqüilo, assoviando e fumando seu cigarro, e o Prof. Agildo um pouco perturbado, pois temia perder o início do jogo. Mas pelo menos agora não havia dúvida, o carro havia de estar estacionado nas proximidades da Biblioteca Central.

Porém, chegando nos arredores da biblioteca, ao invés de dirigir-se para o estacionamento, Doido de Pedra tomou o rumo do passeio público, saindo dos limites da UFPI. Agildo ficou justificadamente surpreso:

- Ô Doido, onde foi mesmo que você estacionou teu carro, hein?

- Carro? Mas que carro, homem?!?

- Ora essa, o teu carro, Doido, eu não te pedi carona pra voltar pra casa hoje?

- Não, não! Você me perguntou se podia voltar pra casa junto comigo!

- Que seja, Doido! Mas onde você deixou seu carro?

- E quem foi que te disse que eu vim de carro? Eu vim a pé!

Estas palavras paralisaram o Prof. Agildo, que viu seu irmão distanciar-se um pouco.

- Vamos, Agildo! Vamos! Senão você vai perder o segundo tempo do teu jogo!