"Quem pensa por si mesmo é livre!"
Renato Russo

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Retorno à casa materna


Faz quase um mês que retornei de Teresina para Piracuruca. Doze anos após a partida do menino inocente que fora estudar na capital e virar gente, retornara o homem feito, formado em Direito e advogado com carteirinha, mas ainda com um longo caminho a trilhar antes de poder andar com as próprias pernas.

Minha mãe me recebeu com muita alegria, muito envaidecida diz que os filhos são o orgulho de sua vida sofrida, e ver o caçula, o “fim de rama”, formado e diplomado era como completar uma importante e difícil missão... Logo ela tinha todo o direito de estar feliz... Mas eu estava triste, magro e abatido, como um soldado cuja nação perdeu a guerra, mas que volta inteiro para casa, sem nada para comemorar, além do fato de estar vivo...

Já faz um mês... "Blém..." O relógio da matriz ressoa no silêncio da noite, pontuando uma hora da madrugada, e ainda não consegui conciliar o sono, como nas longas noites anteriores...

Retornar ao lar materno, depois de tantos anos fora, é como dar um novo início na vida, é quase como nascer de novo, a fortuna me entregou pela segunda vez nos braços da mãe: “ – Toma que o filho é teu!”. Nasci segunda vez quando pus os pés de volta na casa de minha infância, mas não chorei neste meu segundo nascimento... Minto: não chorei alto neste meu segundo nascimento...

Já faz um mês... É madrugada e caminho qual alma penada pelos cômodos da casa, arrastando pesada corrente de prisioneiro... Paro por um instante na parede de retratos da sala... São muitas fotos minhas, de meus irmãos, sobrinhos, antepassados... Fotos de pessoas queridas que já se foram, que moram longe... Fotos de casamentos já desfeitos, de muitas alegrias e sorrisos que o tempo amarelou...

Suspiro... Acabo de descobrir que não gosto de retratos... São uma tentativa inútil de reter o que é inconstante... Gosto, sim, de fotografar paisagens para depois, anos depois, comparar e ver as diferenças. Mas fotos de pessoas não! Fotos de pessoas são muito dolorosas, são muito tristes... mesmo quando a fotografia eternizou um sorriso sincero ou um olhar cheio de ternura... afinal nada permanece para sempre, as pessoas mudam como as paisagens...

Já faz um mês... E ainda não sopesei os doze anos que separam o menino que partiu do homem que voltou à terra natal... O menino me sorri de um ou dois retratos emoldurados... Belo rapaz eu era aos quinze anos! Ainda tinha bastante cabelo e a cabeça cheia de sonhos e fantasias... tudo é possível aos quinze anos...

Fico admirando o moço na parede, comparando com o cidadão calvo e barbado no retrato ao lado, outra versão de mim mesmo, mais de uma década depois... Chego à infalível conclusão de que já não sou mais nem um nem o outro, e os olhares acusadores de ambos me doem no peito, especialmente o do jovenzinho em farda escolar, muito feliz no dia da colação de grau da 8ª série...

É... definitivamente não gosto de retratos! Mas não sou o único! Diga-me, caro leitor, quantos retratos você rasgou quando terminou aquela história de amor? Se me disser que não rasgou nenhum, meus sinceros parabéns! Eu, por minha vez, rasguei e queimei a todos, com lágrimas nos olhos, é bem verdade... Só escaparam os que havia perdido e que depois encontrei esquecidos em alguma gaveta ou livro... Detesto retratos, especialmente os que recordam antigos amores, são ainda mais dolorosos, porque há lágrimas que nunca secam de todo, há nós na garganta que nunca se desfazem...

“Blém... Blém...” Duas horas da manhã... hora de dormir, mas demoro uma eternidade para chegar ao quarto... Pudera! As correntes que arrasto acabaram de ficar ainda mais pesadas...