"Quem pensa por si mesmo é livre!"
Renato Russo

sábado, 23 de maio de 2009

Meu amigo céu


Nos meus tempos de infância, e até às vésperas da adolescência, nada me prendia mais a atenção do que o céu.

Ficar de papo pra cima, observando as vastidões e profundezas celestiais eram para mim um deleite, entretia -me facilmente por horas, horas sem fim, nas quais me demorava silencioso e solitário com a mente esvaziada, observando as revoluções do espaço...

Durante o dia, quando é abundante a luz do sol, ficava estirado na rede, junto à janela de meu quarto, observando o lento passeio das brancas nuvens no céu azul... as nuvens mudavam de forma constantemente, formando rostos, animais, castelos... e em seguida desapareciam, restando apenas o azul...

Vez por outra também a lua aparecia, em pleno dia, compartilhando com o sol a regência dos céus nas primeiras horas da manhã.

Havia ainda o voo plácido dos urubus, pequenos pontos escuros contrastando com o fundo azul e o branco das nuvens, viajando em trajetórias circulares, asas espalmadas, estas impressionantes criaturas aladas me hipnotizavam com sua tranqüilidade, desbravando solitárias ou em pequenos grupos as alturas do infinito... Eu as invejava, muitas vezes quis ser um urubu... e pra ser sincero ainda quero ser!

Sol, lua, nuvens e urubus, era com eles que dialogava por tempo indefinido, sem articular palavra alguma, imerso em meu quarto como uma freira em sua cela, deixando apenas, bem abertas, as janelas ...

***

Na época das chuvas, lá pelo final de dezembro, apareciam nuvens escuras e carregadas no nascente, aumentando de tamanho, moviam-se lentamente, trazidas por ventos que cheiravam a terra molhada... é a chegado do inverno para o matuto. A abóboda celeste praticamente desaparece por dias e dias, encoberta por nuvens de cor azul profundo, desfiando água fertilizadora nas terras ressecadas pelo sol inclemente do equador...

***

O céu me atraia não apenas de dia, também à noite voltava-me para admirá-lo, cortina negra pontilhada de pedras preciosas, aos milhares... estrelas de várias grandezas e de muitas tonalidades: quase azuis, quase vermelhas, piscando e bailando na vastidão do espaço.

As estrelas eram minhas amigas, sabiam tudo de mim, e eu queria saber tudo delas, mas a ciência não explica o sentimento de uma estrela. Há as estrelas do astrônomo e há as estrelas do poeta, e elas não se confundem...

***

Hoje, já distante a minha infância, o céu do dia e o céu da noite continuam iguaiszinhos, iguaiszinhos sobre a minha cabeça, mas eu tive que crescer e deixar de lado os meus amigos da meninice... De quando em vez, enquanto me arrasto sobre o solo, com o olhar detido no chão pra evitar um passo errado, ainda arrisco um olhar para a cortina celestial, de dia ou de noite, e meus amigos do céu acenam para mim, com saudades... Eles ainda me reconhecem... Cumprimento-os com um sorriso e lhes faço a promessa sincera de voltar a visitá-los em breve, muito em breve...

Um comentário:

  1. Grandes amigos e um dia estaremos bem mais proximos deles que hoje estamos...

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