"Quem pensa por si mesmo é livre!"
Renato Russo

terça-feira, 14 de abril de 2009

Me dá um pão!


Isso daqui me contaram, não lembro quem, nem quando, mas asseguro que é verdade, empenhando minha palavra!

O episódio se passou aqui mesmo em Piracuruca, há um par de anos atrás...

Contaram-me que um cidadão passou a noite enchendo a tromba de cachaça, num destes inúmeros botecos que tem em quase toda esquina de nossa cidade. Trabalhador braçal, mal acabara de receber seu pagamento da quinzena, o pobre infeliz dirigiu-se para o bar e se encheu de pinga até gastar o último centavo que tinha nos bolsos, afogando suas mágoas no esquecimento da embriaguez.

Já era tarde da noite quando ficou sem dinheiro e se viu obrigado a ir pra casa, saindo tropeçando, ziguezagueando pelas ruas esvaziadas da cidade. Mas a bebedeira foi tanta que o pobre só chegou até o cemitério São Vicente, ficou sem coragem de andar mais um passinho que fosse, acabaram-lhe as forças.

Resolveu então pernoitar por ali mesmo, deitou-se entre um túmulo e outro, sob a proteção das estrelas e apagou, balbuciando murmúrios de bêbado.

Horas adiante, pouco depois das cinco da manhã, a criatura despertou, cheio de sede da ressaca e com uma fome de roer as tripas!

Ainda estava meio desnorteado quando escutou o barulho solitário de uma bicicleta do outro lado do muro do cemitério. Subiu num túmulo de mármore e viu por sobre o muro baixo um rapazinho levando um jacá enorme, cheio de pães fresquinhos que ia entregar em quitandas daquelas redondezas, para o café da manhã.

- Ei, menino, me dá um pão! Disse o beberrão com aquela voz cavernosa de quem acaba de despertar.

Coitado do entregador de pães! Nunca tinha visto alma penada, ainda mais pedindo pão! A visão foi aterradora! O pobre menino saiu pedalando tão rápido que quase perdeu o equilíbrio ao dobrar na próxima viela, sumindo na madrugada ainda escura.

Depois disso o pobre mudou sua rota de entrega, evitando passar próximo do cemitério.

É tudo verdade, minha gente!

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