Meus primeiros dias de escola não foram nada fáceis. Sempre fora uma criança retraída e tímida, tivera poucos amigos na infância e minhas brincadeiras mais habituais as fazia sozinho, com meus amigos imaginários, inventando mil e uma aventuras no extenso quintal de minha casa, sob a sombra das árvores, mas estas são histórias que deixo para contar em outra oportunidade, leitor amigo, voltemos, pois, aos “meus primeiros dias de escola”, começando pelo primeirão, como tudo aconteceu naquele dia, ou pelo menos como me lembro que aconteceu...
A Unidade Escolar Anísio Brito ficava a dois quarteirões de distância de minha casa, e lá trabalhava minha mãe, como zeladora, desde muitos anos antes d’eu nascer.
No início de minha vida escolar contava sete anos de idade e, pela primeira vez, acompanharia Dona Francisca ao seu local de trabalho, se bem que, quem me levaria era meu irmão.
Como já disse, o colégio ficava a apenas dois quarteirões de minha casa, mas para uma criança introspectiva ao extremo, aqueles dois quarteirões eram como duas léguas... Eu raramente ousava ir além das calçadas de minha casa.
Naquela manhã fria de março de 1984 mentiria se dissesse que estava entusiasmado ou ansioso pelo meu primeiro dia de aula, na verdade eu não tinha a menor noção do que isso significava. Acompanhei indiferente mamãe preparar minha merenda, um suco feito com as laranjas colhidas em nosso quintal, a seguir depositado em minha merendeirazinha cor-de-rosa – sim, caro leitor, inventaram de me dar uma merendeira rosa! Vai ver não havia outras cores disponíveis no mercado...
O fato é que, como mamãe trabalhava no colégio, precisava chegar bem cedo, lá pelas 6h da manhã, encarregando um de meus irmãos mais velhos, o Neném, de me levar à hora da aula, pouco depois das 7h. Naqueles dias era assim o procedimento de entrada dos alunos na Unidade Escolar Anísio Brito: primeiro os mais taludos, alunos da primeira à quarta série, só depois os pequeninos, lá pelas 7h e 15min., pois assim impedia-se que ficássemos à mercê da barbárie dos mais velhos: cacholetas no pé-da-orelha e gozações com os bebês chorões era o mínimo que se poderia esperar.
Bom, o fato é que cheguei de mãos dadas com o Neném. E, mal os “veteranos” foram para suas salas de aula, devo assinalar que meu irmão tinha um motivo extra para me levar para a escola, pois namorava minha professora de pré-escola, e por isso queria chegar bem cedo, devo ainda mencionar, aliás, que quem me deu a lancheira cor-de-rosa foi ela, só não sei porque que era rosa...
A escola era enorme, ainda mais para um menino desconfiado e arredio como eu, ocupava todo um quarteirão, muros por todos os lados e um portão de ferro que parecia ter sido arrancado da entrada de um cemitério e posto ali, até rangia quando estava sendo aberto. Já bastaria isso para minhas mãos gelarem e eu não querer desgrudar do Neném. E ainda tinha mais, o burburinho desesperador que vinha das dezenas de salas de aula com as janelas abertas... podia-se ver os magotes de meninos e meninas sentados em suas carteiras, ouvindo a lição da professora... Deus do céu! De onde vinha aquele murmúrio sem fim?!
Vencidas as barreiras do portão tenebroso e do burburinho dos alunos – que parecia um vespeiro faltavam ainda os poucos metros que nos separavam do pavilhão onde receberia minhas primeiras lições escolares.
A visão não foi mais confortadora que as anteriores, nunca havia visto tantas outras crianças juntas antes! Era um corre-corre, gritos, risos, choros... tudo ao mesmo tempo, somado ao burburinho das salas de aula das proximidades foi a gota d’água, nada me faria largar a mão de meu irmão e ficar naquele local por mais um minuto que fosse, queria voltar para casa, onde era silencioso e seguro:
- Buáááááá!!! Vamo embora, Neném, vamo embora! Não quero ficar aqui não!
- Fica, Williamzim, olha os outros meninos, como estão comportados...
E tome berreiro, e tome menino grudado nas pernas do Neném! Mas então chegou a “tia” Edilene, namorada do Neném – casaram-se pouco tempo depois, diga-se de passagem:
- Que foi, que foi?! Fica aqui só um pouquinho, se você não gostar te levo pra casa, tá bom?
- Não, não, não!!! Não vou ficar aqui não!!!
- Fica só um pouquinho! - Falou pacientemente a “tia”. – Fique aqui pertinho dessa menina bonita, olha os olhos verdes dela, os cachinhos... Ela vai ser sua namorada!
E foi assim que eu fiquei, a menininha de olhos claros e cabelos negros encaracolados não estava chorando, e me olhava com surpresa, como quem dissesse: “- Que menino besta!”.
E por dias e dias, até eu me acostumar, tive que ficar ao lado da “minha namorada”, até me adaptar ao ambiente e àquele mundaréu de meninos, sem falar do barulho enlouquecedor que vinha das salas de aula.
Durante toda minha adaptação à escola minha mãe não se metia, embora estivesse observando tudo, bem escondida de minhas vistas. Ponto pra Dona Francisca, senão eu ia correr e me esconder debaixo de suas saias!
Pois é leitor, a história poderia terminar por aqui mesmo, mas ainda falta um detalhe muito importante: sabe a meninazinha de olhos claros e cabelos encaracolados? A “minha namorada”? Pois é, depois da pré-escola nunca mais estudamos juntos, pouco nos vimos pelas ruas da cidade, cada um seguiu seu caminho separadamente. Fomos estudar na capital, onde nunca nos encontramos, nos formamos, voltamos para nossa Piracuruca – ela primeiro, eu bem depois – nos reencontramos pelas ruas da cidade, nos conhecemos de verdade, namoramos de verdade e, coisa inexplicável, nos casamos!
Vá entender as voltas que a vida dá para pôr as coisas nos seus devidos lugares, como deveriam e precisavam ser...
