Era sempre o mesmo ritual, todo domingo, ao final da tarde, o pároco recostava-se à sua cadeira preguiçosa de palhinha. Em seguida acendia, sucessivamente, quatro ou cinco cigarros, enquanto admirava, do segundo pavimento de sua residência, defronte à grande janela que dava para o templo católico, o movimento monótono do povo pelas ruas que circundavam a velha igreja de São Francisco.
Entre uma baforada e outra, expirando fumaça pelo nariz - como só o sabem fazer os mais experientes na arte do fumo - ora mirava, despreocupadamente, a ponta de seu dedão do pé, que escapava meio torto da sandália de couro, ora erguia os olhos para o forro branco do teto, acompanhando o movimento de alguma aranha ou o vôo de alguma mosca doméstica. Esperava que a aranha, a qualquer instante, interceptasse o inseto asqueroso, mas a aranha sempre parecia alheia ao vôo da mosca, imóvel e imperturbável na sua teia.
De vez em quando, quando a monotonia parecia sem fim, acompanhava com olhar cobiçoso - devidamente escondido por detrás das grandes lentes foscas de seus óculos - uma ou outra mocinha que passava de bicicleta, trepidando sobre os paralelepípedos do calçamento, segurando firmemente o guidão com uma das mãos, enquanto a outra procurava ocultar o que a curta saia insistia em revelar... Se bem que o que mais o atraia era o saltitar dos jovens seios, livres do “soutien”, balançando harmoniosamente, no ritmo do trepidar da bicicleta.
- Mulheres! – murmurava com um sorriso no canto da boca e cigarro entre os dedos, - Por culpa delas estamos neste inferno! – e sorria maliciosamente, cruzando as pernas...
Tão entretido ficava nestas reflexões que, por vezes, demorava a perceber a saudação e os acenos das velhas e encurvadas carolas que, já por aquelas horas, quando o sol começava a sumir no horizontes, cobertas por seus panos e de terço em mãos, dirigiam-se para a igreja, a fim de garantirem seus lugares nos primeiros bancos, próximo ao altar, em sua ingenuidade, imaginavam assim estarem mais próximas do próprio Deus.
- Boa tarde, Padre! – silêncio... - Boa tarde, Padre!!!
Entre uma baforada e outra, expirando fumaça pelo nariz - como só o sabem fazer os mais experientes na arte do fumo - ora mirava, despreocupadamente, a ponta de seu dedão do pé, que escapava meio torto da sandália de couro, ora erguia os olhos para o forro branco do teto, acompanhando o movimento de alguma aranha ou o vôo de alguma mosca doméstica. Esperava que a aranha, a qualquer instante, interceptasse o inseto asqueroso, mas a aranha sempre parecia alheia ao vôo da mosca, imóvel e imperturbável na sua teia.
De vez em quando, quando a monotonia parecia sem fim, acompanhava com olhar cobiçoso - devidamente escondido por detrás das grandes lentes foscas de seus óculos - uma ou outra mocinha que passava de bicicleta, trepidando sobre os paralelepípedos do calçamento, segurando firmemente o guidão com uma das mãos, enquanto a outra procurava ocultar o que a curta saia insistia em revelar... Se bem que o que mais o atraia era o saltitar dos jovens seios, livres do “soutien”, balançando harmoniosamente, no ritmo do trepidar da bicicleta.
- Mulheres! – murmurava com um sorriso no canto da boca e cigarro entre os dedos, - Por culpa delas estamos neste inferno! – e sorria maliciosamente, cruzando as pernas...
Tão entretido ficava nestas reflexões que, por vezes, demorava a perceber a saudação e os acenos das velhas e encurvadas carolas que, já por aquelas horas, quando o sol começava a sumir no horizontes, cobertas por seus panos e de terço em mãos, dirigiam-se para a igreja, a fim de garantirem seus lugares nos primeiros bancos, próximo ao altar, em sua ingenuidade, imaginavam assim estarem mais próximas do próprio Deus.
- Boa tarde, Padre! – silêncio... - Boa tarde, Padre!!!
- Boa tarde, minhas senhoras... – respondia mecanicamente, - Satisfação revê-las, minhas filhas... - dizia falsamente.
E assim chegava ao fim o terceiro ou quarto cigarro... O pároco, que já estava ficando careca e com as primeiras rugas senis lhe aparecendo, há muito deixara de ter o antigo ânimo pelo seu sagrado ofício, já fazia tempo que os ofícios lhe entediavam até a medula, inclusive, na missa daquela noite, repetiria o mesmo sermão que fizera dois ou três anos atrás, no qual chamava a atenção para o pouco pudor das mocinhas no ambiente sacrossanto da igreja, com seus “shortes” e blusinhas devassas... Com certeza nenhum sonolento fiel notaria a repetição, quando muito concordaria com a necessidade de reforçar a orientação, e o vigário ainda poderia aproveitar o tema para apreciar uma ou outra jovem corando, ou ainda com um sorrisinho entre desconcertado e de culpa enfeitando o rosto. Nosso pároco poderia deleitar-se à vontade com o espetáculo, sempre protegido pelas lentes foscas, que nunca revelavam seus olhos.
Com isso em mente dava a última tragada no último cigarro e, mal apagava a derradeira bagana no cinzeiro, avistou Mara chegando em sua moto, subindo a avenida. Sentiu um frenesi de excitação pelo corpo... Mara ajudava o padre na condução das missas há quase dez anos, organizando os eventos sociais da igreja, os grupos de jovens e de senhoras, o coral e até cuidava das tarefas particulares do pároco com dedicação de esposa, mandando lavar suas roupas, fazendo o pagamento de suas contas e até as compras da casa.
Nada mais normal, afinal há oito anos viviam um intenso caso de amor, notório na pequena cidade, embora ninguém tivesse certeza...
Tranquilamente desceu a escadaria para o primeiro pavimento da casa, chegando à sala onde Mara já o aguardava, ela tinha cópias das chaves, e, antes de pedir-lhe que buscasse sua batina branca, arrematou-lhe um ardente beijo de paixão, que só quem já teve um amor proibido sabe o sabor que tem...
É. Padre Bonfim, na verdade, nunca tivera vocação para o sacerdócio... Muito menos para o celibato...
E assim chegava ao fim o terceiro ou quarto cigarro... O pároco, que já estava ficando careca e com as primeiras rugas senis lhe aparecendo, há muito deixara de ter o antigo ânimo pelo seu sagrado ofício, já fazia tempo que os ofícios lhe entediavam até a medula, inclusive, na missa daquela noite, repetiria o mesmo sermão que fizera dois ou três anos atrás, no qual chamava a atenção para o pouco pudor das mocinhas no ambiente sacrossanto da igreja, com seus “shortes” e blusinhas devassas... Com certeza nenhum sonolento fiel notaria a repetição, quando muito concordaria com a necessidade de reforçar a orientação, e o vigário ainda poderia aproveitar o tema para apreciar uma ou outra jovem corando, ou ainda com um sorrisinho entre desconcertado e de culpa enfeitando o rosto. Nosso pároco poderia deleitar-se à vontade com o espetáculo, sempre protegido pelas lentes foscas, que nunca revelavam seus olhos.
Com isso em mente dava a última tragada no último cigarro e, mal apagava a derradeira bagana no cinzeiro, avistou Mara chegando em sua moto, subindo a avenida. Sentiu um frenesi de excitação pelo corpo... Mara ajudava o padre na condução das missas há quase dez anos, organizando os eventos sociais da igreja, os grupos de jovens e de senhoras, o coral e até cuidava das tarefas particulares do pároco com dedicação de esposa, mandando lavar suas roupas, fazendo o pagamento de suas contas e até as compras da casa.
Nada mais normal, afinal há oito anos viviam um intenso caso de amor, notório na pequena cidade, embora ninguém tivesse certeza...
Tranquilamente desceu a escadaria para o primeiro pavimento da casa, chegando à sala onde Mara já o aguardava, ela tinha cópias das chaves, e, antes de pedir-lhe que buscasse sua batina branca, arrematou-lhe um ardente beijo de paixão, que só quem já teve um amor proibido sabe o sabor que tem...
É. Padre Bonfim, na verdade, nunca tivera vocação para o sacerdócio... Muito menos para o celibato...
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