"Quem pensa por si mesmo é livre!"
Renato Russo

domingo, 15 de março de 2009

Morte de Zé Firmino (Conto ou história?)

Era noite de festa no velho cassino da Praça do Bambú, em Piracuruca - hoje a praça só tem bambus no nome e o cassino só existe na lembrança dos moradores mais antigos. Esta história se passa há mais de sessenta anos, e a ouvi umas quinze vezes - num único dia! - de um de seus protagonistas.

Altas horas da noite e a música seguia animada no cassino, e enquanto casais dançavam ao som das antigas marchas entoadas pela orquestra, uns poucos ganhavam e muitos outros perdiam seu dinheiro nas mesas do pano verde.

Perto dali, um quarteirão acima, na rua que passa por trás do antigo colégio Anísio Brito, há menos de cem metros da festança, meu avô materno, José Firmino, agonizava os últimos instantes de vida, depois de longo e penoso sofrimento pela tuberculose.

De vela na mão, acompanhado de perto pela vovó Cota e por um pequeno grupo de parentes e amigos piedosos, aguardava o momento fatal, ao tempo em que ladainhas sem fim eram rezadas na sala pegada ao quarto do moribundo...

- Ave Maria, cheia de graça... – e seguia o mantra católico, melancolicamente...

O diacho era que, vez por outra, um ou outro piedoso, dotado por Deus de menos piedade que os outros, por descuido ou animação mesmo, esquecendo-se da sobriedade do momento, batia o pé ou balançava a cabeça no ritmo da orquestra do cassino, que teimava em atravessar as ave-marias e os padres nossos, quebrando o compasso e a harmonia do coral de carolas.

Repreendido por uma expressão mais severa de um rosto enrugado, o distraído logo recompunha-se, passando a acompanhar a ladainha com o apropriado semblante, ou então sacava um cigarro de palha, aproveitando o álibi para levantar-se e ir fumar lá fora, de onde se podia ouvir melhor a música da festa.

Meu avô era homem muito querido, admirado por sua paciência e cordialidade com todos - embora soubesse ser valente e obstinado quando precisasse - como daquela vez em que se indispôs perpetuamente com os primos “Fontenele” por motivo já esquecido, e mandou, em conseqüência, retirar o dito sobrenome do seu lado da família.

Mas o fato é que o moribundo tinha muitos amigos e admiradores, dentre eles o bravo Jurandir de Aguiar, jovem valente, filho de coronel, cuja maturidade mental de eternos seis anos facilmente deixava transparecer todo tipo de pensamento e sentimento, sem nenhum tipo de filtro social para reter.

Ele fazia sua própria ladainha, recostado à janela:

- É mui’ vergon’! É mui’ vergon’! Zé Firmin’ morren’ e o pô’ dançan’! – e se impacientava com aquela falta de vergonha, olhando nervosamente para o povo que entrava e saía do cassino, descontraído e alheio ao clima fúnebre na casa vizinha.

- Hum nã! Comé que pó’?! É mui’ vergon’! Zé Firmin’ morren’ e o pô’ dançan’! – e cada vez mais se impacientava, ouvindo por uma orelha a ladainha e pela outra a orquestra.

Em pouco tempo o homem chegou ao seu limite, bravamente decidiu ir até o cassino. Com passos firmes e olhar fixo, sem piscar. Em poucos instantes estava frente-a-frente com os leões-de-chácara, vociferando em alta voz:

- Não tão vergon’ não?! O Zé Firmin’ morren’ e o pô’ dançan’! – dizia, enquanto, pra se fazer entender, gesticulava, imitando primeiro o moribundo de vela na mão, e depois os passos da dança no salão.

Seus apelos de nada adiantavam, e não fosse o fato de ser filho do Coronel Aguiar, ao invés de ignorado, seria enxotado da porta do cassino.

O valente Jurandir ainda insistiu duas ou três vezes para que parassem a festa, mas como nada conseguiu saiu de lá com uma idéia em mente: buscar um soldado, armado, pra encerrar o baile de vez.

Peço licença a quem me lê para informar que, de minha parte, só viria a nascer dali há mais de trinta anos, todo o crédito dessa história deve-se ao próprio Jurandir, que já enterrou praticamente todo o pessoal tanto daquela ladainha quanto do baile, e ainda hoje vive, com a graça de Deus, firme e forte, no eterno auge de seus seis anos!

Pois bem, pouco tempo depois retornava acompanhado de um miliciano atencioso, vociferando ainda mais firmemente:

- E agó’? Mim trouxe o soldá’ que é pra cabá a festa é agó’! – como nada acontecesse, o bravo Jurandir, de supetão, sacou da arma do distraído soldado, invadindo o salão sob o olhar estupefato de todos, bradando de arma em punho:

- É pra cabá’ a festa é agó’!!! Tem vergon não?! Zé Firmin’ morren’ e o pô’ dançan’!!! – Páááá!!! - disparou a arma para o alto. – Acaba, acaba, é pra cabá’ é agó’!!! Mim é Aguiar, mim é fi’ do Coroné’ Aguiar!!!

Segundo suas próprias palavras – que há custo aprendi a enternder - a orquestra parou e todo mundo ficou murcho... Era o fim da festa e da vida de meu avô, que deixava o mundo sob o som tranquilo da ave-maria, graças à lealdade e valentia de seu amigo, Jurandir de Aguiar...

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