"Quem pensa por si mesmo é livre!"
Renato Russo

sábado, 21 de março de 2009

Festejo (Memórias)


Chegou outro festejo de julho em Piracuruca. A igreja matriz de N. Sra. do Carmo, como ocorre todos os anos, recebe alguns cuidados, pequenas reformas aqui e ali, e também uma boa limpeza.

Todo ano é assim, desde que me lembro, tanta gente comparece às missas que não cabem na nave, como resultado toda a Praça Irmãos Dantas transforma-se num enorme templo ao ar livre, onde todos ouvem a ladainha do antigo ritual católico.

Devo dizer que nem todos os presentes à praça prestam atenção ao que o pároco diz, afinal cada um, cada faixa de idade, tem seu próprio interesse no festejo, e não seria equivocado dizer que só quem já passou dos cinquenta anos tem, de fato, algum móvel religioso, salvo, é claro, as exceções que teimam em existir em todo tipo de coisa.

Eu mesmo, por exemplo, nunca fui muito católico, embora sempre tenha tido um comportamento manso, beirando a estaticidade. Quando criança, vendo aproximarem-se os dias do festejo, que, por felicidade, coincidiam com o início das férias escolares do mês de julho, ficava sonhando com o parque cheio de brinquedos que estava por chegar, com sua roda gigante, sombrinha, carrinhos bate-bate, patinhas girantes e aviõezinhos...

E o circo então? Uma vez venho um circão bem grande, que teve que ficar montado no morro do Patronato de tão enorme que era. O morro, aliás, não existe mais, mas o Patronato ainda está lá, mesmo sem o morro, que hoje virou praça, com canteiros e postes elétricos.

Quanto ao circo, eu era tão meninote naquele ano que não lembro absolutamente nada do espetáculo, nem mesmo quantos anos eu tinha, lembro apenas daquele mundaréu de gente fazendo fila pra entrar e daquela lona listrada de vermelho e amarelo. Somente essas lembranças e a expectativa do espetáculo ficaram na minha memória de criança. Deve ser por isso que se diz que o melhor da festa é esperar por ela...

Mas nada se comparava ao que realmente me deixava eufórico no mês de julho: as barraquinhas! Dezenas de barracas montadas na rua ao lado da igreja Cristã Evangélica, do outro lado da Praça Irmãos Dantas, indo em direção ao rio.

Eram tantas barraquinhas que ficavam espremidas umas às outras, formando um labirinto de lonas plásticas e armações de madeira. Tinha sorveteiros, vendedores de algodão-doce, de maça-do-amor e, mais que tudo, de brinquedos! Era uma infinidade de bonecos, pistolinhas de água e de bolinhas de plástico, times de futebol de botão, tudo tão colorido e atraente que não sabia em qual barraca parar, igual mosca em prato cheio de doces!

- Moço, quanto é este pião de plástico? - E esse boneco aqui, não, o outro, o azul? - Se eu comprar dois times de botão o senhor deixa mais barato?

E olha que aquele povo de fora tinha paciência! Respondia a tudo com aquele meloso na voz de quem quer vender, como se imaginassem que meu pai ou minha mãe estavam ali por perto e logo, logo viriam comprar os objetos de meu desejo, acho que pensavam assim porque eu só andava de camisa e chinelos nos pés, diferente da maioria dos meus companheiros de infância humilde. Ah! Ilusão deles, eu ainda tinha que voltar em casa e tentar garimpar uns trocados da minha mãe! Era um lenga-lenga danado...

- Mamãe! Tem cada coisa bonita nas barraquinhas! Tem uns bonequinhos que parecem gente! Umas pistolinhas pretas que parecem aquelas de filme de bang-bang! E é tudo baratinho, baratinho!

A dona Francisca, que só andava com os trocados contados e empenhados, não resistia aos meus apelos e perguntava logo:

- E quanto é este baratinho, Williamzim?

Era certo que pelo menos um timezinho de botão novo ou uma pistolinha de mola estavam garantidos. Difícil era escolher depois o que comprar. Às vezes segurava a ansiedade e deixava pra comprar já lá pelo dia quinze, quando o festejo já estava acabando e os preços baixavam... Eu não era bobo não, seu menino!

Mas festa mesmo eu fazia era quando algum tio ou um de meus irmãos vinham passar o festejo lá em casa, taí que eu estava feito! Não precisava nem eu pedir, sempre vinha um trocadinho para gastar nas barracas. Eu passava o festejo todo comprando brinquedos, inclusive os desejadíssimos batalhões de soldados articulados, tinha dos verdes, dos brancos e dos azuis. E eu fazia o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, todos com quepe e capacete!

Nos meus tempos de criança era pra isso que servia o festejo. Pena que hoje as coisas mudaram tanto... Hoje praticamente não tem mais barraquinhas, e não encontro mais o que tanto me interessava quando criança. Chamam a isso de “mudança”... Eu chamo de saudade...

Um comentário:

  1. Belo texto "Williamzim"...
    Tempos maravilhosos, de uma magia única, que infelizmente não voltam mais...quanta saudade!

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