"Quem pensa por si mesmo é livre!"
Renato Russo

segunda-feira, 30 de março de 2009

O Fofoqueiro


Das figuras tarimbadas, daquelas que não podem faltar de jeito nenhum em cidadezinhas pequenas do interior, merece destaque a figura da fofoqueira, em regra tem-se mais de uma, formando um verdadeiro clube ou central de notícias.

Normalmente a fofoqueira é uma senhora de meia idade, viúva, divorciada ou largada, aposentada, já com os filhos criados e morando longe, e que, justamente por absoluta falta do que fazer, passa a dedicar-se ao ofício de observar a vida alheia e informar a população dos últimos acontecimentos. Sim, pois que graça tem descobrir aquela senhora bomba e não passar adiante? O bom está em espalhar o fuxico, pelo bem de todos.

Do banco da praça onde hoje estou assentado, bem de frente para velha casinha amarela, posso observar a meticulosa arte de umas das mais notórias fofoqueiras de Piracuruca, não lhe revelo o nome porque não gosto de mexericos.

Da janela ela monta seu ponto de observação, e olha que são só dez horas da manhã, hora morta nestas pairagens, horário em que todos estão trabalhando e só uma ou outra criança passeia entre os jardins floridos da praça da matriz. Mas, como é julho e a cidade está em festejo, cheia de visitantes, nunca se sabe o flagrante que se pode pegar, não é mesmo, leitor?

O ofício de fazer fofoca não é fácil não, exige muito jeito e muita paciência, parece mais ou menos com uma pescaria: escolhe-se cuidadosamente o melhor lugar, joga-se a isca e se fica a esperar para ver o que acontece.

Assim como numa pescaria, nada é mais frustrante do que aquele peixão que a gente jurava que já estava no papo e que escapa no último instante, com um salto no ar! Da mesma forma, por vezes pega-se umas piabinhas miúdas que o melhor mesmo é soltar, na esperança de voltar a pegá-las quando estiverem maiores e derem mais repercussão...

Mas a maior semelhança da fofoca com a pescaria é mesmo a típica mentira de pescador: o exagero.

Vejo claramente a senhora da casa amarela com o telefone celular na mão (tempos modernos!), fazendo uns trejeitos estranhos ao discar, em seguida, enquanto se esconde por detrás da folha da janela, parece falar, sussurrando:

- Mulher, tu não sabe o que foi que eu acabei de ver aqui na praça!

E não é difícil imaginar o diálogo inteiro:

- O que foi? Conta logo que já estou me coçando!

- Sabe aquela moça, a Ana, filha do dono do armazém, seu Quincas?

- Ana? A mais velha solteirona?

- Não! A mais nova, aquela casada, que já tem até filho!

- Ah, sei, que é que tem ela?

- Mulher, tá bem aqui na praça no maior love com o Edgar do Amorim!

- Quê?! Mas ele não é casado também?!

- É pra você ver a pouca vergonha! Plena luz do dia e na frente do filhinho dela!!!

E daí vai... não dou nem até o final da tarde pra história já estar na boca do povo, principalmente nas manicures e cabeleireiras da cidade...

Daqui de onde estou, bem acomodado num dos bancos da praça, vejo perfeitamente a Ana, filha do dono do armazém e o Edgar, velhos conhecidos de infância... Confesso que o momento mais ardente é quando ele sai e logo após retorna com uns bombons pra agradar o pequeno que acompanha a mãe, o menino está ao mesmo tempo encantado e assustado com um palhaço feio que se apresenta próximo ao coreto da praça...

Ai, ai, vida de fazer mexericos é assim mesmo, enxerga-se o que não existe, fala-se do que se imagina...

Se bem que, prestando bem atenção naqueles dois, até eu fico um pouco intrigado, afinal, como já disse, esta é uma hora morta, muita coincidência eles se encontrarem neste horário, mesmo sendo festejo de julho. E é meio esquisito, eles conversam praticamente sem se olhar, falando de lado... Não dá pra saber o que dizem, ora sorrindo, ora taciturnos, ora silenciosos...

“O povo aumenta, mas não inventa!”. Mas... será mesmo?

Quer saber... acho que vou ficar mais um pouco por aqui, quem sabe hoje a pescaria não é da boa...

sábado, 21 de março de 2009

Festejo (Memórias)


Chegou outro festejo de julho em Piracuruca. A igreja matriz de N. Sra. do Carmo, como ocorre todos os anos, recebe alguns cuidados, pequenas reformas aqui e ali, e também uma boa limpeza.

Todo ano é assim, desde que me lembro, tanta gente comparece às missas que não cabem na nave, como resultado toda a Praça Irmãos Dantas transforma-se num enorme templo ao ar livre, onde todos ouvem a ladainha do antigo ritual católico.

Devo dizer que nem todos os presentes à praça prestam atenção ao que o pároco diz, afinal cada um, cada faixa de idade, tem seu próprio interesse no festejo, e não seria equivocado dizer que só quem já passou dos cinquenta anos tem, de fato, algum móvel religioso, salvo, é claro, as exceções que teimam em existir em todo tipo de coisa.

Eu mesmo, por exemplo, nunca fui muito católico, embora sempre tenha tido um comportamento manso, beirando a estaticidade. Quando criança, vendo aproximarem-se os dias do festejo, que, por felicidade, coincidiam com o início das férias escolares do mês de julho, ficava sonhando com o parque cheio de brinquedos que estava por chegar, com sua roda gigante, sombrinha, carrinhos bate-bate, patinhas girantes e aviõezinhos...

E o circo então? Uma vez venho um circão bem grande, que teve que ficar montado no morro do Patronato de tão enorme que era. O morro, aliás, não existe mais, mas o Patronato ainda está lá, mesmo sem o morro, que hoje virou praça, com canteiros e postes elétricos.

Quanto ao circo, eu era tão meninote naquele ano que não lembro absolutamente nada do espetáculo, nem mesmo quantos anos eu tinha, lembro apenas daquele mundaréu de gente fazendo fila pra entrar e daquela lona listrada de vermelho e amarelo. Somente essas lembranças e a expectativa do espetáculo ficaram na minha memória de criança. Deve ser por isso que se diz que o melhor da festa é esperar por ela...

Mas nada se comparava ao que realmente me deixava eufórico no mês de julho: as barraquinhas! Dezenas de barracas montadas na rua ao lado da igreja Cristã Evangélica, do outro lado da Praça Irmãos Dantas, indo em direção ao rio.

Eram tantas barraquinhas que ficavam espremidas umas às outras, formando um labirinto de lonas plásticas e armações de madeira. Tinha sorveteiros, vendedores de algodão-doce, de maça-do-amor e, mais que tudo, de brinquedos! Era uma infinidade de bonecos, pistolinhas de água e de bolinhas de plástico, times de futebol de botão, tudo tão colorido e atraente que não sabia em qual barraca parar, igual mosca em prato cheio de doces!

- Moço, quanto é este pião de plástico? - E esse boneco aqui, não, o outro, o azul? - Se eu comprar dois times de botão o senhor deixa mais barato?

E olha que aquele povo de fora tinha paciência! Respondia a tudo com aquele meloso na voz de quem quer vender, como se imaginassem que meu pai ou minha mãe estavam ali por perto e logo, logo viriam comprar os objetos de meu desejo, acho que pensavam assim porque eu só andava de camisa e chinelos nos pés, diferente da maioria dos meus companheiros de infância humilde. Ah! Ilusão deles, eu ainda tinha que voltar em casa e tentar garimpar uns trocados da minha mãe! Era um lenga-lenga danado...

- Mamãe! Tem cada coisa bonita nas barraquinhas! Tem uns bonequinhos que parecem gente! Umas pistolinhas pretas que parecem aquelas de filme de bang-bang! E é tudo baratinho, baratinho!

A dona Francisca, que só andava com os trocados contados e empenhados, não resistia aos meus apelos e perguntava logo:

- E quanto é este baratinho, Williamzim?

Era certo que pelo menos um timezinho de botão novo ou uma pistolinha de mola estavam garantidos. Difícil era escolher depois o que comprar. Às vezes segurava a ansiedade e deixava pra comprar já lá pelo dia quinze, quando o festejo já estava acabando e os preços baixavam... Eu não era bobo não, seu menino!

Mas festa mesmo eu fazia era quando algum tio ou um de meus irmãos vinham passar o festejo lá em casa, taí que eu estava feito! Não precisava nem eu pedir, sempre vinha um trocadinho para gastar nas barracas. Eu passava o festejo todo comprando brinquedos, inclusive os desejadíssimos batalhões de soldados articulados, tinha dos verdes, dos brancos e dos azuis. E eu fazia o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, todos com quepe e capacete!

Nos meus tempos de criança era pra isso que servia o festejo. Pena que hoje as coisas mudaram tanto... Hoje praticamente não tem mais barraquinhas, e não encontro mais o que tanto me interessava quando criança. Chamam a isso de “mudança”... Eu chamo de saudade...

domingo, 15 de março de 2009

Morte de Zé Firmino (Conto ou história?)

Era noite de festa no velho cassino da Praça do Bambú, em Piracuruca - hoje a praça só tem bambus no nome e o cassino só existe na lembrança dos moradores mais antigos. Esta história se passa há mais de sessenta anos, e a ouvi umas quinze vezes - num único dia! - de um de seus protagonistas.

Altas horas da noite e a música seguia animada no cassino, e enquanto casais dançavam ao som das antigas marchas entoadas pela orquestra, uns poucos ganhavam e muitos outros perdiam seu dinheiro nas mesas do pano verde.

Perto dali, um quarteirão acima, na rua que passa por trás do antigo colégio Anísio Brito, há menos de cem metros da festança, meu avô materno, José Firmino, agonizava os últimos instantes de vida, depois de longo e penoso sofrimento pela tuberculose.

De vela na mão, acompanhado de perto pela vovó Cota e por um pequeno grupo de parentes e amigos piedosos, aguardava o momento fatal, ao tempo em que ladainhas sem fim eram rezadas na sala pegada ao quarto do moribundo...

- Ave Maria, cheia de graça... – e seguia o mantra católico, melancolicamente...

O diacho era que, vez por outra, um ou outro piedoso, dotado por Deus de menos piedade que os outros, por descuido ou animação mesmo, esquecendo-se da sobriedade do momento, batia o pé ou balançava a cabeça no ritmo da orquestra do cassino, que teimava em atravessar as ave-marias e os padres nossos, quebrando o compasso e a harmonia do coral de carolas.

Repreendido por uma expressão mais severa de um rosto enrugado, o distraído logo recompunha-se, passando a acompanhar a ladainha com o apropriado semblante, ou então sacava um cigarro de palha, aproveitando o álibi para levantar-se e ir fumar lá fora, de onde se podia ouvir melhor a música da festa.

Meu avô era homem muito querido, admirado por sua paciência e cordialidade com todos - embora soubesse ser valente e obstinado quando precisasse - como daquela vez em que se indispôs perpetuamente com os primos “Fontenele” por motivo já esquecido, e mandou, em conseqüência, retirar o dito sobrenome do seu lado da família.

Mas o fato é que o moribundo tinha muitos amigos e admiradores, dentre eles o bravo Jurandir de Aguiar, jovem valente, filho de coronel, cuja maturidade mental de eternos seis anos facilmente deixava transparecer todo tipo de pensamento e sentimento, sem nenhum tipo de filtro social para reter.

Ele fazia sua própria ladainha, recostado à janela:

- É mui’ vergon’! É mui’ vergon’! Zé Firmin’ morren’ e o pô’ dançan’! – e se impacientava com aquela falta de vergonha, olhando nervosamente para o povo que entrava e saía do cassino, descontraído e alheio ao clima fúnebre na casa vizinha.

- Hum nã! Comé que pó’?! É mui’ vergon’! Zé Firmin’ morren’ e o pô’ dançan’! – e cada vez mais se impacientava, ouvindo por uma orelha a ladainha e pela outra a orquestra.

Em pouco tempo o homem chegou ao seu limite, bravamente decidiu ir até o cassino. Com passos firmes e olhar fixo, sem piscar. Em poucos instantes estava frente-a-frente com os leões-de-chácara, vociferando em alta voz:

- Não tão vergon’ não?! O Zé Firmin’ morren’ e o pô’ dançan’! – dizia, enquanto, pra se fazer entender, gesticulava, imitando primeiro o moribundo de vela na mão, e depois os passos da dança no salão.

Seus apelos de nada adiantavam, e não fosse o fato de ser filho do Coronel Aguiar, ao invés de ignorado, seria enxotado da porta do cassino.

O valente Jurandir ainda insistiu duas ou três vezes para que parassem a festa, mas como nada conseguiu saiu de lá com uma idéia em mente: buscar um soldado, armado, pra encerrar o baile de vez.

Peço licença a quem me lê para informar que, de minha parte, só viria a nascer dali há mais de trinta anos, todo o crédito dessa história deve-se ao próprio Jurandir, que já enterrou praticamente todo o pessoal tanto daquela ladainha quanto do baile, e ainda hoje vive, com a graça de Deus, firme e forte, no eterno auge de seus seis anos!

Pois bem, pouco tempo depois retornava acompanhado de um miliciano atencioso, vociferando ainda mais firmemente:

- E agó’? Mim trouxe o soldá’ que é pra cabá a festa é agó’! – como nada acontecesse, o bravo Jurandir, de supetão, sacou da arma do distraído soldado, invadindo o salão sob o olhar estupefato de todos, bradando de arma em punho:

- É pra cabá’ a festa é agó’!!! Tem vergon não?! Zé Firmin’ morren’ e o pô’ dançan’!!! – Páááá!!! - disparou a arma para o alto. – Acaba, acaba, é pra cabá’ é agó’!!! Mim é Aguiar, mim é fi’ do Coroné’ Aguiar!!!

Segundo suas próprias palavras – que há custo aprendi a enternder - a orquestra parou e todo mundo ficou murcho... Era o fim da festa e da vida de meu avô, que deixava o mundo sob o som tranquilo da ave-maria, graças à lealdade e valentia de seu amigo, Jurandir de Aguiar...

quarta-feira, 11 de março de 2009

Padre Bonfim (Conto)

Era sempre o mesmo ritual, todo domingo, ao final da tarde, o pároco recostava-se à sua cadeira preguiçosa de palhinha. Em seguida acendia, sucessivamente, quatro ou cinco cigarros, enquanto admirava, do segundo pavimento de sua residência, defronte à grande janela que dava para o templo católico, o movimento monótono do povo pelas ruas que circundavam a velha igreja de São Francisco.

Entre uma baforada e outra, expirando fumaça pelo nariz - como só o sabem fazer os mais experientes na arte do fumo - ora mirava, despreocupadamente, a ponta de seu dedão do pé, que escapava meio torto da sandália de couro, ora erguia os olhos para o forro branco do teto, acompanhando o movimento de alguma aranha ou o vôo de alguma mosca doméstica. Esperava que a aranha, a qualquer instante, interceptasse o inseto asqueroso, mas a aranha sempre parecia alheia ao vôo da mosca, imóvel e imperturbável na sua teia.

De vez em quando, quando a monotonia parecia sem fim, acompanhava com olhar cobiçoso - devidamente escondido por detrás das grandes lentes foscas de seus óculos - uma ou outra mocinha que passava de bicicleta, trepidando sobre os paralelepípedos do calçamento, segurando firmemente o guidão com uma das mãos, enquanto a outra procurava ocultar o que a curta saia insistia em revelar... Se bem que o que mais o atraia era o saltitar dos jovens seios, livres do “soutien”, balançando harmoniosamente, no ritmo do trepidar da bicicleta.

- Mulheres! – murmurava com um sorriso no canto da boca e cigarro entre os dedos, - Por culpa delas estamos neste inferno! – e sorria maliciosamente, cruzando as pernas...

Tão entretido ficava nestas reflexões que, por vezes, demorava a perceber a saudação e os acenos das velhas e encurvadas carolas que, já por aquelas horas, quando o sol começava a sumir no horizontes, cobertas por seus panos e de terço em mãos, dirigiam-se para a igreja, a fim de garantirem seus lugares nos primeiros bancos, próximo ao altar, em sua ingenuidade, imaginavam assim estarem mais próximas do próprio Deus.

- Boa tarde, Padre! – silêncio... - Boa tarde, Padre!!!
- Boa tarde, minhas senhoras... – respondia mecanicamente, - Satisfação revê-las, minhas filhas... - dizia falsamente.

E assim chegava ao fim o terceiro ou quarto cigarro... O pároco, que já estava ficando careca e com as primeiras rugas senis lhe aparecendo, há muito deixara de ter o antigo ânimo pelo seu sagrado ofício, já fazia tempo que os ofícios lhe entediavam até a medula, inclusive, na missa daquela noite, repetiria o mesmo sermão que fizera dois ou três anos atrás, no qual chamava a atenção para o pouco pudor das mocinhas no ambiente sacrossanto da igreja, com seus “shortes” e blusinhas devassas... Com certeza nenhum sonolento fiel notaria a repetição, quando muito concordaria com a necessidade de reforçar a orientação, e o vigário ainda poderia aproveitar o tema para apreciar uma ou outra jovem corando, ou ainda com um sorrisinho entre desconcertado e de culpa enfeitando o rosto. Nosso pároco poderia deleitar-se à vontade com o espetáculo, sempre protegido pelas lentes foscas, que nunca revelavam seus olhos.

Com isso em mente dava a última tragada no último cigarro e, mal apagava a derradeira bagana no cinzeiro, avistou Mara chegando em sua moto, subindo a avenida. Sentiu um frenesi de excitação pelo corpo... Mara ajudava o padre na condução das missas há quase dez anos, organizando os eventos sociais da igreja, os grupos de jovens e de senhoras, o coral e até cuidava das tarefas particulares do pároco com dedicação de esposa, mandando lavar suas roupas, fazendo o pagamento de suas contas e até as compras da casa.

Nada mais normal, afinal há oito anos viviam um intenso caso de amor, notório na pequena cidade, embora ninguém tivesse certeza...

Tranquilamente desceu a escadaria para o primeiro pavimento da casa, chegando à sala onde Mara já o aguardava, ela tinha cópias das chaves, e, antes de pedir-lhe que buscasse sua batina branca, arrematou-lhe um ardente beijo de paixão, que só quem já teve um amor proibido sabe o sabor que tem...

É. Padre Bonfim, na verdade, nunca tivera vocação para o sacerdócio... Muito menos para o celibato...

quinta-feira, 5 de março de 2009

O Malabares da Vida



Hoje (05/03/09), estive em Teresina – a capital do Piauí e do calor! – e tive a oportunidade, dada pela providência divina, de viver um momento ímpar.

Era quase meio-dia, o sol a pino castigava meu escalpo já bem “descabelado”, tornando a sensação de calor simplesmente insuportável, tudo isso metido num mais que inadequado terno preto, como manda o figurino de um advogado – a moda nos trópicos deveria ser outra!

Caminhava em direção ao centro da cidade quando, ao passar pelo cruzamento da Av. Miguel Rosa com a Frei serafim, notei, enquanto esperava oportunidade de usar a faixa de pedestres, que havia um adolescente fazendo malabares com bolinhas, aproveitando o sinal estava vermelho, na expectativa de receber alguns trocados pelo espetáculo improvisado.

Tudo normal, esta cena poderia ter se passado em qualquer grande cidade deste brasilzão de gigantescas injustiças sociais. Porém algo diferente prendeu minha atenção, e não foi a perícia do jovem no malabarismo com bolinhas, ao invés, foi justamente o seu fraco desempenho que me despertou o interesse: em poucos movimentos, a princípios precisos, o jovem perdeu a sincronia – talvez ofuscado pelo sol do meio-dia – e derrubou as bolinhas...

Não, nada disso, não me julguem mal! Não pensem que o que chamou minha atenção foi o fracasso do esforçado malabarista. O que prendeu meu espírito foi que, ao deixar as três bolinhas caírem, o jovem resignadamente as apanhou e, mesmo percebendo que haviam motoristas dispostos a recompensá-lo com uns trocados, dirigiu-se ao meio-fio, tirou o nariz de palhaço e, de cócoras, escondeu o rosto com uma flanela branca.

De onde estava não pude perceber se a flanela era usada para enxugar-lhe o suor ou lágrimas... Sei apenas que quando saí daquele transe e comecei a atravessar a avenida, passei bem ao seu lado quando o sinal fechou de novo e ele, animadamente, extravasou para si mesmo: “ – Agora vai dar certo!”.

Enquanto continuava meu caminho, descendo a colina, ainda percebi que, infelizmente, não foi daquela vez, as bolinhas caíram ainda mais cedo que antes. O que fez toda a diferença é que o jovem, ao invés de desistir novamente, apanhou as bolinhas com altivez e reiniciou sua arte...

Grande lição para ele, maior ainda para mim: se atrapalhar e derrubar as bolinhas faz parte, é o risco da vida, deixar de juntá-las e começar de novo é que não pode!

Obrigado, Senhor, por mais este aprendizado!