
Das figuras tarimbadas, daquelas que não podem faltar de jeito nenhum em cidadezinhas pequenas do interior, merece destaque a figura da fofoqueira, em regra tem-se mais de uma, formando um verdadeiro clube ou central de notícias.
Normalmente a fofoqueira é uma senhora de meia idade, viúva, divorciada ou largada, aposentada, já com os filhos criados e morando longe, e que, justamente por absoluta falta do que fazer, passa a dedicar-se ao ofício de observar a vida alheia e informar a população dos últimos acontecimentos. Sim, pois que graça tem descobrir aquela senhora bomba e não passar adiante? O bom está em espalhar o fuxico, pelo bem de todos.
Do banco da praça onde hoje estou assentado, bem de frente para velha casinha amarela, posso observar a meticulosa arte de umas das mais notórias fofoqueiras de Piracuruca, não lhe revelo o nome porque não gosto de mexericos.
Da janela ela monta seu ponto de observação, e olha que são só dez horas da manhã, hora morta nestas pairagens, horário em que todos estão trabalhando e só uma ou outra criança passeia entre os jardins floridos da praça da matriz. Mas, como é julho e a cidade está em festejo, cheia de visitantes, nunca se sabe o flagrante que se pode pegar, não é mesmo, leitor?
O ofício de fazer fofoca não é fácil não, exige muito jeito e muita paciência, parece mais ou menos com uma pescaria: escolhe-se cuidadosamente o melhor lugar, joga-se a isca e se fica a esperar para ver o que acontece.
Assim como numa pescaria, nada é mais frustrante do que aquele peixão que a gente jurava que já estava no papo e que escapa no último instante, com um salto no ar! Da mesma forma, por vezes pega-se umas piabinhas miúdas que o melhor mesmo é soltar, na esperança de voltar a pegá-las quando estiverem maiores e derem mais repercussão...
Mas a maior semelhança da fofoca com a pescaria é mesmo a típica mentira de pescador: o exagero.
Vejo claramente a senhora da casa amarela com o telefone celular na mão (tempos modernos!), fazendo uns trejeitos estranhos ao discar, em seguida, enquanto se esconde por detrás da folha da janela, parece falar, sussurrando:
- Mulher, tu não sabe o que foi que eu acabei de ver aqui na praça!
E não é difícil imaginar o diálogo inteiro:
- O que foi? Conta logo que já estou me coçando!
- Sabe aquela moça, a Ana, filha do dono do armazém, seu Quincas?
- Ana? A mais velha solteirona?
- Não! A mais nova, aquela casada, que já tem até filho!
- Ah, sei, que é que tem ela?
- Mulher, tá bem aqui na praça no maior love com o Edgar do Amorim!
- Quê?! Mas ele não é casado também?!
- É pra você ver a pouca vergonha! Plena luz do dia e na frente do filhinho dela!!!
E daí vai... não dou nem até o final da tarde pra história já estar na boca do povo, principalmente nas manicures e cabeleireiras da cidade...
Daqui de onde estou, bem acomodado num dos bancos da praça, vejo perfeitamente a Ana, filha do dono do armazém e o Edgar, velhos conhecidos de infância... Confesso que o momento mais ardente é quando ele sai e logo após retorna com uns bombons pra agradar o pequeno que acompanha a mãe, o menino está ao mesmo tempo encantado e assustado com um palhaço feio que se apresenta próximo ao coreto da praça...
Ai, ai, vida de fazer mexericos é assim mesmo, enxerga-se o que não existe, fala-se do que se imagina...
Se bem que, prestando bem atenção naqueles dois, até eu fico um pouco intrigado, afinal, como já disse, esta é uma hora morta, muita coincidência eles se encontrarem neste horário, mesmo sendo festejo de julho. E é meio esquisito, eles conversam praticamente sem se olhar, falando de lado... Não dá pra saber o que dizem, ora sorrindo, ora taciturnos, ora silenciosos...
“O povo aumenta, mas não inventa!”. Mas... será mesmo?
Quer saber... acho que vou ficar mais um pouco por aqui, quem sabe hoje a pescaria não é da boa...

