"Quem pensa por si mesmo é livre!"
Renato Russo

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

PEDRA BRANCA (Conto)

A serração cobria a paisagem naquela manhã de março de 1866. Acordei cedo, como de costume, mas aquele não era um dia como outro, não, naquela manhã almoçaria na casa de minha noiva!

A celebração do noivado tivera lugar na véspera. Há dois anos, desde que voltara dos estudos na Europa, sonhava casar-me com a bela Amélia, filha única do Sr. Medeiros, juiz de direito da freguesia. Foi nas festas do padroeiro, numa bela noite de junho, que nos avistamos pela primeira vez, quando ela passeava com seu pai. Sob a pálida luz dos lampiões nossos olhares se encontraram, como que irremediavelmente destinados àquele momento, de nada me recordo daquele instante, a não ser o brilho irresistível daquele olhar de menina-mulher.

***

Meu pai, Dr. Gonçalves, respeitado médico em nossa região, fizera bem seu papel de interlocutor e, por vezes, intercessor junto ao pai da moça, uma vez que o meritíssimo julgava não ser prudente sua filha contrair compromisso com um moço recém-chegado, ainda que fosse filho de quem fosse. Havia ainda a complicação de que a moça, há poucos meses, havia rompido noivado com o filho de um grande comerciante do lugar, Sr. Tenório do Armazém, como era conhecido. Augusto era o nome do rapaz, cujo futuro era continuar os prósperos negócios do pai.

Mas tudo isso era passado! Na noite anterior todas as barreiras finalmente caíram! Foram dois longos anos, mas, enfim, com a benção de seu pai, éramos noivos! Casaríamos até o final do ano e, depois, seguiríamos para a Vila do Alegrete, onde exerceria meu ofício, médico como meu pai, já até possuía uma pequena mas abastada clientela.

***

O negro selou meu cavalo, e mal o sol começava a dissolver a neblina, galopei rumo à residência de minha amada, deveria antes passar em casa de alguns pacientes de meu pai, duas senhoras idosas, que sofriam dos males da idade, e um jovem, amigo meu na infância, que desenvolvera terrível doença respiratória nos anos em que estive fora. Estaria na casa do magistrado à combinada hora do almoço.

Naquela manhã a paisagem familiar me parecia renovada, com ares de novidade, prestava atenção no canto da passarinhada e um sorriso me inundava a face, recordando dos acontecimentos felizes do dia anterior, era impossível não sonhar com o futuro venturoso que se delineava no meu horizonte.

***

- Dr. Filipe! - pareceu-me ouvir uma primeira vez - Dr. Filipe! - Sim, era um negrinho da casa do juiz que, pálido de terror, galopava ao meu encontro... – Sinhozinho... matou a coitadinha, sinhozinho! O desgraçado matou sua noiva!

Eu sorri, não era verdade... fiquei esperando acordar do pesadelo quando o negrinho insistiu: - O maldito do Augusto matou a sua noiva, homem de Deus!

- Não!

Ele não poderia ter feito isso, ele não poderia ter feito isso... - O maldito! Nem respondi ou escutei mais nenhuma palavra do mensageiro, voltei a toda disparada para casa, armei-me com uma das pistolas de meu pai, que as colecionava, e voltei com o rosto injetado de sangue, queimando de ódio... Eu sabia onde estava o desgraçado, sim, eu o encontraria, de minha vingança ele não poderia fugir, eu teria o seu sangue em minhas mãos!

- Covarde assassino!

E, de fato, o encontrei, o desgraçado não tencionava esconder-se, eu o encontrei nas proximidades do riacho, onde o maldito parecia que me esperava, recostado tranquilamente em uma grande pedra branca às margens do riacho.

- Covarde! – vociferei, - Como pôde tirar a vida dela?! Covarde!

- Ela me deixou, eu disse que se não fosse minha não seria de mais nenhum outro, ela sabia, eu a avisei!

Foram estas suas palavras...

O desgraçado sabia que o encontraria nem que fosse no fim do mundo, por isso não se deu ao trabalho de fugir, ele queria morrer naquele dia, e não seria eu que lhe negaria este desejo.

Já desci da montaria com a pistola em punho, o miserável permanecia impassível, apenas uma gota de suor que escorria por sua face denunciava-lhe alguma reação. Entre soluços de ódio e o desespero da perda irreparável, como se quem morresse naquele hora fosse eu, descarreguei a arma a pouca distância no peito do infeliz. Dois tiros ecoaram naquelas margens desertas, o sangue espirrou, manchando a pedra branca. O desgraçado tombou a meus pés, e eu fiquei morto, de joelhos, sentindo o cheiro de pólvora queimada no ar...

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