E por que não? Por que deixar de sonhar? Por que viver assim sem sabor? O que nos reserva a vida? Não pode ser apenas dor... Abre teus olhos, vê Mesmo o que ninguém mais enxerga... Deixe aberto o teu coração, Pois os tempos de escuridão não vão demorar, logo passam... Não é verdade que a toda manhã nasce um novo sol? Seja o sol... As nuvens te podem encobrir Mas não apagar tua luz...
Faz quase um mês que retornei de Teresina para Piracuruca. Doze anos após a partida do menino inocente que fora estudar na capital e virar gente, retornara o homem feito, formado em Direito e advogado com carteirinha, mas ainda com um longo caminho a trilhar antes de poder andar com as próprias pernas.
Minha mãe me recebeu com muita alegria, muito envaidecida diz que os filhos são o orgulho de sua vida sofrida, e ver o caçula, o “fim de rama”, formado e diplomado era como completar uma importante e difícil missão... Logo ela tinha todo o direito de estar feliz... Mas eu estava triste, magro e abatido, como um soldado cuja nação perdeu a guerra, mas que volta inteiro para casa, sem nada para comemorar, além do fato de estar vivo...
Já faz um mês... "Blém..." O relógio da matriz ressoa no silêncio da noite, pontuando uma hora da madrugada, e ainda não consegui conciliar o sono, como nas longas noites anteriores...
Retornar ao lar materno, depois de tantos anos fora, é como dar um novo início na vida, é quase como nascer de novo, a fortuna me entregou pela segunda vez nos braços da mãe: “ – Toma que o filho é teu!”. Nasci segunda vez quando pus os pés de volta na casa de minha infância, mas não chorei neste meu segundo nascimento... Minto: não chorei alto neste meu segundo nascimento...
Já faz um mês... É madrugada e caminho qual alma penada pelos cômodos da casa, arrastando pesada corrente de prisioneiro... Paro por um instante na parede de retratos da sala... São muitas fotos minhas, de meus irmãos, sobrinhos, antepassados... Fotos de pessoas queridas que já se foram, que moram longe... Fotos de casamentos já desfeitos, de muitas alegrias e sorrisos que o tempo amarelou...
Suspiro... Acabo de descobrir que não gosto de retratos... São uma tentativa inútil de reter o que é inconstante... Gosto, sim, de fotografar paisagens para depois, anos depois, comparar e ver as diferenças. Mas fotos de pessoas não! Fotos de pessoas são muito dolorosas, são muito tristes... mesmo quando a fotografia eternizou um sorriso sincero ou um olhar cheio de ternura... afinal nada permanece para sempre, as pessoas mudam como as paisagens...
Já faz um mês... E ainda não sopesei os doze anos que separam o menino que partiu do homem que voltou à terra natal... O menino me sorri de um ou dois retratos emoldurados... Belo rapaz eu era aos quinze anos! Ainda tinha bastante cabelo e a cabeça cheia de sonhos e fantasias... tudo é possível aos quinze anos...
Fico admirando o moço na parede, comparando com o cidadão calvo e barbado no retrato ao lado, outra versão de mim mesmo, mais de uma década depois... Chego à infalível conclusão de que já não sou mais nem um nem o outro, e os olhares acusadores de ambos me doem no peito, especialmente o do jovenzinho em farda escolar, muito feliz no dia da colação de grau da 8ª série...
É... definitivamente não gosto de retratos! Mas não sou o único! Diga-me, caro leitor, quantos retratos você rasgou quando terminou aquela história de amor? Se me disser que não rasgou nenhum, meus sinceros parabéns! Eu, por minha vez, rasguei e queimei a todos, com lágrimas nos olhos, é bem verdade... Só escaparam os que havia perdido e que depois encontrei esquecidos em alguma gaveta ou livro... Detesto retratos, especialmente os que recordam antigos amores, são ainda mais dolorosos, porque há lágrimas que nunca secam de todo, há nós na garganta que nunca se desfazem...
“Blém... Blém...” Duas horas da manhã... hora de dormir, mas demoro uma eternidade para chegar ao quarto... Pudera! As correntes que arrasto acabaram de ficar ainda mais pesadas...
Por que será que certas lembranças de nossa infância, já tão distante pelo tempo inclemente, que insiste em correr, ficam tão enraizadas em nossa memória ao ponto de se tornarem impossíveis de esquecer?
Fatos banais, simplórios, ficam armazenados em nosso banco de dados cerebral como se naquela recordação estivesse importante ensinamento, valioso demais para ser esquecido, mesmo que não saibamos decodificar conscientemente a mensagem, nem naquele momento, nem mesmo pela vida inteira.
Lembro quando tinha sete anos e mais um pouco, primeiros tempos de pré-escola naqueles dias de inverno rigoroso. Mentiria se lhe dissesse, amigo leitor, a data exata do acontecimento, pois se é certo que a memória não nos deixa esquecer certos fatos, também não é menos verdade dizer que as datas e marcos que usamos para contar o tempo parecem ter valor secundário em face dos acontecimentos a serem recordados.
O certo é que no final daquela tarde de março, ou abril, de 1984, despencou do céu violenta chuva em forma de tormenta. Sim, pois nestas pairagens do Brasil ou se sofre pela falta das chuvas ou se sofre pela violência das águas que descem dos céus e transbordam rios, desalojando pessoas e animais.
Mas, como dizia, naquela tarde o tempo fechou repentinamente, escureceu antes das cinco horas, e, das pesadas nuvens cor de chumbo que encobriam o céu precipitaram-se grossos pingos d’água que, impulsionados por forte ventania, batiam no telhado de minha casa com som de metralhadora.
Aos primeiros relâmpagos, como é praxe até hoje, foi-se embora a energia elétrica, deixando a mim e minha assustada mãezinha na penumbra, ouvindo o sibilo do vento e o crepitar incessante dos pingos de chuva no telhado.
Mal acabara de cobrir todos os espelhos da casa, a fim de não atrair os raios, conforme o imaginário popular, mamãe pôs-se a rezar o terço diante de uma vela acesa, ao mesmo tempo em que me determinava silêncio e que ficasse sentadinho na cadeira, pôr os pés descalços no chão nem pensar!
As orações eram interrompidas a todo instante por breves clarões brancos seguidos quase que imediatamente por terríveis trovões, denunciando a proximidade do local de queda dos raios.
Confesso, sem falsa modéstia, que tudo aquilo não me causava nenhum medo, afinal era apenas chuva, vento e raios, coisa muito natural. Para minha mãe, no entanto, era como se o próprio Deus estivesse enfurecido, e cada trovão era sua poderosa voz, ralhando com os pobres mortais, filhos ingratos.
- Te cala, menino! Não está ouvindo que Deus está ralhando? Tenha respeito!
Na minha cabeça não conseguia entender porque Deus estaria zangado comigo, mas obedecia minha mãe, como devem fazer os bons filhos.
A tempestade continuou com a mesma força por pelo menos um quarto de hora, quando então, depois de forte clarão e trovão ensurdecedor, ouviu-se um crepitar estranho e grande barulho, como se um gigante estivesse vindo ao chão, vitimado pela fúria da natureza.
- Valei-me, Virgem Maria! Protegei-me, Nossa Sra. do Carmo! – Minha mãe de assustada passava a aflita, redobrando as orações e as recomendações para que eu ficasse quieto.
A mim, repito, passado o natural sobressalto, tudo parecia normal, aliás, sempre tive esta característica de total tranqüilidade, mesmo nos momentos de maior aflição, dizem que saí a meu avô paterno, que nem cheguei a conhecer.
Pouco a pouco o tempo serenou, a chuva passou, a energia elétrica se restabeleceu e tudo voltou ao normal lá pelas horas da novela das sete. Exceto pelo fato de que naquela noite nenhum vizinho veio assistir televisão em minha casa, tudo voltava à habitual tranquilidade.
Às oito da noite, como de costume, fui dormir, ouvindo o chato zim zim zim das muriçocas.
***
Pela manhã, por volta das 6h, já me encontrava de pé e nos preparativos para ir à escola. Era um típico amanhecer de inverno, muita neblina, frio de matar e bandos de pardais e bem-te-vis se fartando de comer aqueles cupins alados que só aparecem após as chuvas. Hipnotiza-me ver aqueles pássaros capturarem suas pequenas vítimas num vôo certeiro, indo e vindo a todo momento dos fios elétricos, sempre com um inseto no bico.
Estava totalmente esquecido da chuvarada do dia anterior e, à hora da aula, meu irmão me conduziu pela curta distância de dois quarteirões até a U.E. Anísio Brito, onde aprendi as primeiras letras e minha mãezinha trabalhava como zeladora.
Apesar de não temer as forças da natureza, o mesmo não ocorria com meu temperamento fora da segurança do lar, fui criança tímida e introspectiva, e todos os meus passos, da saída de casa à entrada do pavilhão onde receberia minhas lições do dia foram dados bem próximos ao meu mano, e com os olhos bem fixos no chão, como se estivesse, primeiro, contando as pedras do calçamento, depois as “pedras de piqui” da estreita calçada da escola e, por fim, o número de placas de cimento que formavam a calçada interna, que circundava todo o prédio e conduzia ao pavilhão da pré-escola.
Não é de se espantar, portanto, que não tenha percebido nada de estranho naquela manhã, as pedras do calçamento continuavam nos mesmos lugares, também as da calçada externa rente ao muro da U.E. Anísio Brito, tudo normal também com a calçada interna.
Qual não foi então a minha surpresa quando, já no pavilhão da pré-escola, sentado no chão, rente ao pequeno batente que o rodeava, ergui timidamente o olhar para fora e fui cativado, imediatamente, por uma das mais assombrosas e encantadoras visões que já tive na vida, uma daquelas que, só para frisar o que disse anteriormente, por uma razão desconhecida teima em nos acompanhar pela vida toda.
Um dos dois enormes oitizeiros da escola, uma das árvores centenárias que guarneciam as duas esquinas frontais do colégio, havia tombado sobre o muro, despedaçando-o. Estava aí o gigante caído. Com cerca de vinte metros de altura, talvez três de circunferência, mostrava-me por entre a neblina, a menos de cinquenta passos de distância, os horrendos tentáculos de suas raízes, arrancadas do solo pela violência da tempestade do dia anterior. Compreendi que o estalo e o estrondo que tinha ouvido no dia anterior fora a queda da árvore venerável...
Suas raízes me fitavam como que pedindo socorro, a árvore agonizava e, como tudo que vive, não queria morrer.
Não tive medo, mas sim um sentimento intraduzível, impossível de ser verbalizado ou escrito, que me invadiu o espírito de um único sopro... Chorei... Chorei junto com a árvore, misturando seus lamentos aos meus... E se o oitizeiro agonizava em silêncio, tornei-me seu veículo audível, soluçando e berrando compulsivamente... Jamais havia entendido o que ocorrera naquela data, estimado e paciente leitor, até este exato momento em que escrevo estas linhas: naquele dia, naquele exato momento, eu e o oitizeiro nos tornamos uma única criatura, sua dor passou a ser a minha dor e sua tristeza a minha tristeza, até suas lembranças passaram a ser minhas...
Centenas, milhares de alunos já tinham se abrigado e feito brincadeiras debaixo de sua copa ampla ao longo das décadas, seu imponente tronco estava gravado com vários nomes e declarações de amor pueril... Mas, depois da tempestade do dia anterior, tudo estava no chão... Havia ainda, do lado oposto da escola, outro oitizeiro, igualmente imponente, irmão do primeiro... O moribundo sentia a dor pela separação iminente e, naquele instante em que o menino e a árvore formavam um mesmo ser, amalgamados numa só criatura, coube-me o privilégio de chorar e gemer pelo meu querido amigo... Não por ele, mas com ele...
Foi-me impossível permanecer na escola, não queria presenciar os instantes em que o oitizeiro seria esquartejado, feito em pedaços menores para ser retirado de cima dos escombros do muro e, aos poucos, desobstruir o cruzamento de ruas que interditara com sua queda. Não, a dor que sentia já era por demais lancinante, era do tamanho de uma árvore gigante.
Sem remédio, entregaram-me a minha mãe, que me conduziu de volta para casa, onde fiquei taciturno, silencioso e choroso por todo o dia. Pela primeira vez na minha vida sentira o que era a morte e a tristeza de uma despedida. Mesmo que hoje outra árvore ocupe o lugar do velho oitizeiro, um frondoso pé-de amêndoa, seu irmão gêmeo e eu continuamos a repartir a saudade e as lembranças da valente árvore que tombou ante a fúria dos céus.
Nos meus tempos de infância, e até às vésperas da adolescência, nada me prendia mais a atenção do que o céu.
Ficar de papo pra cima, observando as vastidões e profundezas celestiais eram para mim um deleite, entretia -me facilmente por horas, horas sem fim, nas quais me demorava silencioso e solitário com a mente esvaziada, observando as revoluções do espaço...
Durante o dia, quando é abundante a luz do sol, ficava estirado na rede, junto à janela de meu quarto, observando o lento passeio das brancas nuvens no céu azul... as nuvens mudavam de forma constantemente, formando rostos, animais, castelos... e em seguida desapareciam, restando apenas o azul...
Vez por outra também a lua aparecia, em pleno dia, compartilhando com o sol a regência dos céus nas primeiras horas da manhã.
Havia ainda o voo plácido dos urubus, pequenos pontos escuros contrastando com o fundo azul e o branco das nuvens, viajando em trajetórias circulares, asas espalmadas, estas impressionantes criaturas aladas me hipnotizavam com sua tranqüilidade, desbravando solitárias ou em pequenos grupos as alturas do infinito... Eu as invejava, muitas vezes quis ser um urubu... e pra ser sincero ainda quero ser!
Sol, lua, nuvens e urubus, era com eles que dialogava por tempo indefinido, sem articular palavra alguma, imerso em meu quarto como uma freira em sua cela, deixando apenas, bem abertas, as janelas ...
***
Na época das chuvas, lá pelo final de dezembro, apareciam nuvens escuras e carregadas no nascente, aumentando de tamanho, moviam-se lentamente, trazidas por ventos que cheiravam a terra molhada... é a chegado do inverno para o matuto. A abóboda celeste praticamente desaparece por dias e dias, encoberta por nuvens de cor azul profundo, desfiando água fertilizadora nas terras ressecadas pelo sol inclemente do equador...
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O céu me atraia não apenas de dia, também à noite voltava-me para admirá-lo, cortina negra pontilhada de pedras preciosas, aos milhares... estrelas de várias grandezas e de muitas tonalidades: quase azuis, quase vermelhas, piscando e bailando na vastidão do espaço.
As estrelas eram minhas amigas, sabiam tudo de mim, e eu queria saber tudo delas, mas a ciência não explica o sentimento de uma estrela. Há as estrelas do astrônomo e há as estrelas do poeta, e elas não se confundem...
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Hoje, já distante a minha infância, o céu do dia e o céu da noite continuam iguaiszinhos, iguaiszinhos sobre a minha cabeça, mas eu tive que crescer e deixar de lado os meus amigos da meninice... De quando em vez, enquanto me arrasto sobre o solo, com o olhar detido no chão pra evitar um passo errado, ainda arrisco um olhar para a cortina celestial, de dia ou de noite, e meus amigos do céu acenam para mim, com saudades... Eles ainda me reconhecem... Cumprimento-os com um sorriso e lhes faço a promessa sincera de voltar a visitá-los em breve, muito em breve...